#2 Entre verbos - O garoto da capa

domingo, junho 23, 2013

memoirs of a fractured mind

         E lá está você. Dando passos rápidos, ora em falsos, ora frenéticos. Encostando os pés no asfalto quebrado com certa firmeza para quem não sabe onde pisa. Seus olhos procuram os meus com suavidade quando nossos passos se cruzam, fitando com firmeza aquilo que mais tarde você chamaria de misteriosa como a escuridão. Seus olhos, que logo eu chamaria de confusos como um mar em fúria, fitam-me, percorrendo todo o meu corpo e dá um sorriso. O mar em fúria se torna brando, afogando-me em toda sua angústia.

        Seu telefone toca, e você o atende com impaciência. Sua voz firme, tanto suave quanto feroz, ecoa pela rua quebrando o vazio do silencio. Era isso que você fazia no meu coração. Ecoava e quebrava cada pequena máscara que eu insistia em manter. Em seu rosto, uma barba mal feita, uma cicatriz ao lados dos lábios e uma expressão de que tinha encontrado o que mais procurava. O seu cabelo bagunçado pelo vento se fundia na escuridão, e eu, apenas me guiava pelo cheiro que você liberava. Hortelã doce e quente. O seu veneno já circulava junto ao meu sangue, já matava cada órgão, poluindo todas as células. Tornava-me um pedaço de carne morta, uma pequena parte daquilo que você tanto chama de “amor da minha vida.”

             Consegui, sozinha, ver beleza naquilo que me matava. Mas eu vou esperar. Vou esperar você chegar em meu quarto com a mesma suavidade em que você andava no asfalto, me dizendo em um tom brando que agora tudo ficará bem e que não se passou de pesadelo, que todo minha vida não se passou de um pesadelo. Você vai abrir as cortinas, deixar a luz entrar e nem vai perceber que a luz já estava ali a partir do momento que você chegou. Vai abrir as janelas e o vento vai bater em seus cabelos outra vez. Eu sempre lhe culparei por todos os meus erros, mas lhe ver assim, com a luz penetrando o seu rosto, me faz esquecer todo o seu lado consumido pelas trevas. Me faz sentir pena de ver que você se deixou entregar tão facilmente. Depois, você fechará as janelas, a cortina e sentará ao meu lado, segurando minha mão. Dizendo que sente falta, e que apenas estava tentando salvar a minha alma. Vou dar um sorriso e sentir ainda mais pena de você.

               Destruído pelas trevas, afogado pelo mar em fúria. Você disse que nunca me afogaria junto a ti, e que se preciso for, salvaria minha vida destruindo a sua. Prometeu que nunca deixaria meus passos serem apenas um reflexo de uma lembrança. Eu lembro, suas trevas chegaram a machucar, então você prometeu que essa escuridão que cortavam, não iriam arrancar uma gota de sangue das minhas veias. Prometeu que estaria comigo quando as trevas apunhalassem suas espadas, que seria meu escudo quando todos atacassem. E então, onde está você?

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