#13 Entre verbos - E esqueça o café

segunda-feira, outubro 07, 2013

Untitled

E tomar um café escuro ás seis, e sorrir ás sete, e mancar até nove e meia. Continuar sorrindo, simbolicamente, em símbolos, em sinais. E sentir e sentir e sentir, e cavar cada vez mais fundo, enquanto eu sinto. No meu buraco tem café, você gosta? Bom, e do cheiro forte? E você sabe que eu manco um pouco, que eu machuquei o pé por falta de lugar para machucar. Eu já ocupei todos os meus lugares machucáveis. Eu já não tenho mais onde machucar e seria uma boa hora para você se aproximar.

Sabia que eu me cansei dessa coisa de estar no fundo de um buraco, apenas esperando alguém me alimentar? Porque cada dia fica mais fundo e meus olhos acompanham essa profundidade enquanto você se repousa em meu tapete e diz que aquilo ali é bom. Sobretudo, se aninha nele como uma criança, e diz que é bom. E deve ser, junto com essa coisa de esconder desenhos, palavras e cadernos. E deve realmente ser bom, junto com essa chuva ligeira e esses olhos cor de mar.

Eu não me importo de você se aninhar no tapete, abraçando um travesseiro, enquanto um violão escuro se aninha ao seu lado suavemente. E você pode sorrir, sabe? Eu realmente não me importaria com um sorriso, ou dois. Eu não me importaria com suas covinhas aparecendo em cada uma das suas bochechas, e eu sequer reclamaria se você me colocasse para contar as suas pintas, ou cantar suas músicas.

Mas, ei, me escute - eu digo sobre o vento - sabe aquele olhar que você dá despercebido e aquele sorriso que você dá quando é notado? Eles são as coisas mais lindas do planeta, clichemente falando. E clichemente falando, aquele sorriso poderia curar aquela minha doença terminal que você sequer sabe que existe. Você percebe? Conhece a sua importância, olhos verdes? Clichemente, ridiculamente, porem-mente falando, os seus olhares parecem beijos e o seu calor diz tudo para você.

E eu vou rir, porque não dá para você esconder. Você tenta olhar de lado, pelo reflexo, sobre o vidro e sobre a janela, e de dentro de uma caixa que nós tentamos colocar em nossas vistas apenas para conseguirmos olhar na direção certa. Eu digo como se eu e você fossemos a direção errada. Mas, eu estou mentindo. Mentindo o tempo todo, porque você é a direção mais certa que eu poderia olhar.  A direção mais certa que eu poderia irrelevantemente enfiar os meus pés e sentir a estrada se afundar em mim. Nós colocamos uma caixa na cabeça, furamos um buraco nela em direção ao caminho errado e fingimos que estamos olhando para frente, enquanto o reflexo mostra a nossa verdade.

E eu ri, ri alto, porque eu cocei o nariz, e você coçou o nariz, e naquela hora nós criamos um gesto novo, inconsciente, quase puro demais para nós dois. Era uma nova forma de dizer o que não podíamos falar, certo? Era quase abrir a boca, e sentir o hálito fresco, de olhos fechados, mas o peito rasgado, aberto. Era quase isso tudo em um único gesto que mal durou dois segundos. Era quase um abraço, um beijo e um pedido de casamento.

Você se moveu brusco, e eu quis voltar, te chamar e gritar seu nome apesar do barulho e da gente. E eu quis isso, entende? Quis coçar o nariz de novo, falar algo baixo e em francês que você entenderia e me responderia em outra língua qualquer. Não importaria se você dissesse "eu comi seu chocolate" em francês, ou "que tal uma salada?" em italiano, ou apenas contar até dez em mandarim, enquanto eu apenas te perguntei as horas que você vai dormir essa noite. Você me respondeu, e eu sei a resposta apesar de você ter dito qualquer coisa invés das horas. Porque eu sei suas respostas, sei antes de ouvir. Porque eu sei que o seu "a, du, trua" significa "J'etaime".

Texto original, por Yara Lima.
Plágio é crime.



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2 comentários

  1. OMG *0* você escreve muito bem!
    http://sabrinafeli.blogspot.com/

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  2. amei o texto, verdadeiro, esse também foi um dos melhores.

    www.karlagisella.com.br

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