#16 Entre verbos - Entre o vento e a chuva

sexta-feira, outubro 18, 2013

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       E como é que finge que o coração está batendo? Enfiar a mão garganta a baixo e segurar o coração, pulsa-lo, bate-lo, já não funciona mais. Já não faz o mesmo efeito que fazia há algum tempo atrás. E como é que se bate? Que se retrai, relaxa, retrai em harmonia súbita e irrelevante? Que bombeia e suga e exala? Você poderia me explicar como é que se volta a vida?

       Eu segurei as mãos do vento, que batia no meu rosto e me tirava o ar da pior maneira possível. E a chuva assistia aquilo tudo, com dor, em assobios, com os olhos me espiando ligeiramente adoráveis. E eu quis a chuva. Dançar na chuva. Rodar os meus braços e sentir cada uma das gotas, deslizando devagar. Mas, o vento insiste em afastar aquela chuva, e me faz fechar os olhos, porque é a única maneira de protege-los.

        A chuva me olhou nos olhos. Como se fosse apenas carnal assim, apenas o verbo olhar. Porque, não só olhou. Pegou a minha mão com aquele olhar, e sussurrou alguma coisa sem palavras, que eu entendi perfeitamente mesmo não conseguindo ouvir nada. Eu quis ir embora. E quis fugir. E quis correr para longe, para aonde chovesse, assim, de olhos dados com a chuva. Porque... Aquele calor é real, certo? Aquela sensação de praticamente tudo pegando fogo, e eu estar acendendo uma fogueira ao meu lado é certa e real para mim. Aquela sensação de estar me aproximando de um espelho é verdadeira, e aqueles olhos chuvosos, chamuscados de verde cor do mar, que me sequem no escuro, é tudo que eu preciso ver toda hora, em todo dia, em todos os anos, e em todo o tempo que ainda me resta.

         Porque parece clichê isso tudo. Eu falando da chuva, e elogiando os seus olhos, dizendo que eles são tudo que eu preciso. Mas, deixe que seja clichê. Porque, apesar de tudo, é o nosso clichê. O meu clichê com a chuva.

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