#17 Entre verbos - Ninguém vai perceber

sexta-feira, outubro 25, 2013

Untitled

      Porque tem de ser esses olhos? Porque não aparecem outros toda vez que eu fecho os meus e tento pensar em alguma coisa? É apenas aqueles. Apenas aquele pequeno par de pedaços verdes olhando para mim, como se sorrissem, assim com os lábios, assim como o corpo todo. E eu tento fechar os meus; Tento de verdade, e pensar sobre a prova de amanhã, ou nos testes da semana toda, ou nos treinamentos de quinta, ou nas aulas que eu tenho que dar, ou nos desenhos que eu tenho que fazer. Tento, mas não consigo. Tudo que aparece são aqueles olhos que brilham apesar do escuro.

      E, pensando nos olhos, eu vejo o sorriso. O sorriso que se encolhe aos poucos, e as bochechas que se comprimem pedindo para serem afagadas. As dobrinhas, uma de cada lado, criando um parênteses entre aquele sorriso. Como se toda sua expressão, se ressumisse á isso: Ao seu (sorriso). E eu preciso mesmo falar sobre os olhos novamente? - Alguém pergunta dentro de minha cabeça, alguém que insiste na minha simetria textual e no sentido que tudo isso deve fazer. Eu ignoro a pergunta, e as falas, e as reclamações. Porque eu falarei do seus olhos com todas as palavras que eu puder usar, que eu, inutilmente, tentarei resumir depois de algumas páginas usadas desse caderno velho.

      Eu fecho os meus olhos. Só por fechar mesmo. Sem querer nada em troca. Como se eu fosse alguém que quisesse ver seus olhos a todo momento. Como se eu estivesse escrevendo esse texto por vontade própria. Como se o meu pedido ás oito horas, fosse apenas para me proteger na noite escura. E nós sabemos que tudo isso é uma grande mentira, não sabemos? Que você só quer, cavalheiramente, me trazer em segurança, apenas isso. Que eu levo uma guarda-chuva, mas na verdade eu quero me molhar. Que nós contamos de maneira ingênua até três como qualquer outra pessoa normal. Mas, não. Nosso contar até três é mais que números, nosso francês é mais que uma língua, e nossos gestos involuntários mais que gestos. Nossos olhares são mais que qualquer olhar. E você sabe disso. Nós sabemos.

       Nós sabemos que assim, ninguém vai nos ver, ninguém vai perceber que eu prefiro a chuva dentre muitas outras coisas. Ninguém vai perceber que agora eu enxergo bem, e que eu sorrio melhor. E que seus olhos, são os olhos que eu sempre quis ver a vida toda.

                                                            
                                                      Confira os meus outros textos,
                                            que compõe o Entre verbosclicando aqui. 

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