#18 Entre verbos - Mais um relatório

segunda-feira, outubro 28, 2013



       Eu odiei a chuva. Odiei os olhos, o sorriso, os parenteses e todas as coisas que eu aceitei fazer. Que eu aceitei escrever. Porque não é só o vento que me machuca. A chuva, talvez, queira fazer o mesmo agora, eu suponho. Talvez, ela prefira virar um vento qualquer do que continuar sendo a chuva que sempre foi. Porque, ela prefere dizer algumas coisas secas, do que proferir algumas mais quentes.

       E eu não entendo, realmente não entendo. Por favor, se for só para brincar, só para me prender dentro de casa, sem um guarda-chuva, senhora chuva, me avise. Porque, com o vento eu não preciso de um guarda-chuva - algo para me proteger -, e eu posso sair de casa. Mas existe certo gosto em ficar em casa, e assistir você passar. Sabe, a insegurança, o guarda-chuva, e aquelas tantas coincidências que encontramos. Existe gosto em contar até três. Mas, hoje, você me fez perder parte disso.

       Eu repito que eu não entendo. Porque... Eu não tenho o direito de dizer isso. Eu não tenho o direito de dizer nenhuma dessas coisas. Mas, eu não sei o que se passou dentro da sua cabeça. E, céus, precisava agir assim? Tão sem pudor, sem pena, ou piedade, ou qualquer outra coisa que se passasse dentro do coração. Eu pedi para você fazer um pedido. É tolice, clichê, ingenuidade, em dizer que eu pedi a chuva? E a chuva me colocou em segundo plano, em segunda escolha, no segundo lugar na lista de "coisas que eu mais quero."

        É um problema isso, doutor - eu digo olhando para o médico invisível em minha frente, que faz um relatório tão rápido, tão distraído, que eu me sinto falando sozinha. Eu ergo meus olhos, e o cutuco na altura na bochecha.- porque segundo lugar? Porque uma medalha de prata? Porque isso, enquanto eu juntei para ele algumas páginas, letras, horas, minhas melhores canetas, e melhores sorrisos, risos, planos, promessas, olhares, e aquela cara que ele adora, ou aquele chamado baixo? Eu não entendo, doutor.

      Sabe... O doutor jogou o relatório dele fora, abriu a porta e saiu. Talvez,  ele estivesse cansado demais para ouvidor qualquer coisa. Um trabalho estressante em suponho. Eu seria apenas mais uma tese dele, e o meu problema não serviu suficientemente.

      Ele pediu desculpas. O doutor. Disse que se importa. Mas saiu. Falou que ia voltar. Não voltou, ainda. Talvez volte. Talvez não. Talvez pegue o relatório do lixo e recomece a escrever apenas porque encontrou certo charme em escrever sobre mim. Ou desenhar sobre mim. Porque, talvez, o charme daquilo tudo foi apenas curiosidade da chuva, e do doutor.

      Porque nada nem ninguém. Nada nem ninguém, nada nem ninguém. Mas, ninguém acabou de se tornar você. Sabe. E me perdoe por ter falado isso tudo. Desculpa Doutor, mas você poderia, só, assim, por acaso, pegar o meu relatório de volta?


                                                            
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