#24 Entre verbos - Algo sobre a chuva

terça-feira, dezembro 10, 2013

France

     Sabe qual é o nosso problema, chuva? Nós insistimos em cair. Sempre caindo cada vez, e você sabe, assim como eu, que o chão nunca vai chegar. Eu tenho uma pequena coisa para contar, quase que sem importância nenhuma. Eu estava andando, e ouvi alguém comentar: "Parece que o vento afastou a chuva." Nada soaria tão meteorológico. Não para mim. Eu peguei a essência de cada palavra, e nada faria mais sentido. Você sabe, chuva, nada faria mais sentido. E eu continuei andando daquele jeito meio manco por causa do joelho que você já deve conhecer de tanto observar. Já dele saber qual dos joelhos dói mais, na verdade. Eu pensei naquilo o dia todo. No vento, na chuva, e nas coincidências.

      E choveu hoje; Eu achei que não choveria, mas choveu. Apareceu calmamente, com aquele leve balançar imitando um pouco do meu jeito manco de andar. Foi doce. Sentir a chuva. Algumas poucas gotas, algumas poucas oportunidades de cair. Mas você sabe que conseguiu me atingir; Soube pela a minha forma de evitar, a forma como eu me fechei dentro do meu guarda-chuva imaginário quase que encolhida em uma posição fetal - perceba aqui a fragilidade do momento. Porque o vento machuca. Te afasta e me afasta, senhora chuva. Você acha que eu, como a mera telespectadora que sou, não sou ferida também. Olhe nos meus olhos - consegue ver? Consegue ver que não é só você? O vento quebrou os meus dedos para que eu nunca mais pudesse escrever. Mas, não sabia que não era dos dedos que vinha a vontade de escrever. Perceba. Apenas sinta essas pequenas palavras como suas pequenas gotas - não é só você, chuva.

      Nós estamos separados, mas não sozinhos. Não adianta evitar, ou fingir grande parte do tempo, porque hora ou outra nossos olhares vão se cruzar. E eu terei que abrir um guarda-chuva imaginário e me encolher de novo dentro dele daquela maneira. Mas não importa. Essa dor é boa. Essa dor do vento tendo a oportunidade de te afastar é melhor do que não ter nada para fazer. Porque, você veio, ele te afastou, e eu te tive por alguns segundos sublimes, doces, e intocáveis. Você pode ficar, embora já tenha o feito. Eu não me importa, chuva, de ter que viver em baixo de um objeto, e viver encolhida. Isso significa que você veio, e ficou. Isso significa que o seu mancar, e o meu mancar podem andar lado a lado um dia.

 Trecho da postagem
"Se eu falar bem devagar, se eu segurar a sua mão,
se você olhar bem de perto, meu amor,
você poderá entender."

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1 comentários

  1. Lindo texto, amo como você escreve. Se eu entendi certo, você comparou a chuva com o amor, quer dizer mais ou menos, kkk. Beijos

    http://docespensamentosblog.blogspot.com.br

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