#30 Entre verbos: Entre o escuro e a luz

sexta-feira, setembro 12, 2014






               Eu gosto da forma como a luz do poste da rua entra no meu quarto pela janela. Não é que eu tenha medo do escuro, ou que eu me perco em imaginações sombrias, mas é porque o escuro é vazio e o vazio me assombra. É aquilo de me perder no vazio, daquela forma confusa, profundamente ligeira demais e que vai ficando frio, vai ficando gelado, e eu vou ficando cada vez mais vazia. Vazia como o escuro, que súbito e companheiro se tornou tão familiar. Foi ficando familiar, foi se tornando meu velho amigo de infância e íamos contando segredos a medida que eu dormia em seus braços interagindo naquela falta de cor tão feroz. O escuro era já algo pertencente a minha pele e eu carregava como uma criança em meu colo. Quando eu não tinha o escuro nas noites frias do meu quarto, eu o tinha nos dias dentro de mim. Ou... Ao mesmo tempo em que eu o tinha no meu quarto, eu o tinha em qualquer outro lugar. Era a minha energia e ela já era escura. Lá já estava ela, repleta de insanidade e eu precisava de paz.

               Então súbito quanto aquele escuro, mas de um modo sem comparações, tinha a luz. Ela vem do posto e incendeia meu quarto; Tudo que eu tinha que fazer era abrir as cortinas e deixá-las, assim, escancaradas. Talvez seja notório do que eu estou falando, assim como também não pode ser, então vamos esclarecer as coisas: Eu estou falando, sem dúvidas, dele. Porque é a luz do posto que aquece, aquela luz clara que me mantém acordada pelas madrugadas aos finais de semana ou quando eu não poderia fazer isso também. Se comecei falando em metáforas, continuarei em metáforas, e é aquela luz que me embala como se eu estivesse encostada em teu próprio peito. E acaricia meus cabelos. E me abraça com olhos incandescentes.

               Mas sem dúvidas aquela luz que vem do posto não ilumina apenas minhas noites, mas também os meus dias. Assim como o escuro, que me perseguia o tempo todo. Agora eu respiro fundo e leve, com a plena certeza que é apenas um respirar; Porque antes eu suspirava e era apenas para eu me esvaziar, ou inutilmente tentar fazê-lo. Agora é apenas pelo prazer de suspirar ou suspirar quando solto aquele sorriso calmo e pleno como o sorriso de uma criança brincando. Porque talvez agora eu viva num estado sereno e matinal de brincar. De soltar um riso de algo estranho mesmo que eu não possa rir porque minha boca está cheia de outra coisa qualquer. De contar histórias para a luz tão animada que sequer se compara com o modo que o escuro me embalava e me calava.

               O escuro e seu gosto excêntrico me torturava e eu precisava dizer isso. Eu simplesmente não tenho a maldade do mundo em mim; Ela foi implantada em mim e agora já não tenho mais nada. Porque entre o súbito do escuro e o demorado  da luz, eu com toda certeza escolho o demorado. E nessa escolha certeira, deixei a maldade se esvarar no súbito do escuro. Eu não queria lembranças. Não quero lembranças pelo simples fato de eu não precisar delas.

               Sim, sempre metáforas, imutavelmente metáforas. Se o escuro ao menos soubesse que seu tormento é insignificantemente perante a paz do outro, não insistiria em sua permanência.

             

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