#31 Entreverbos: Não dói

sexta-feira, setembro 12, 2014





               Eu acho que era algo como cair; Não sei ao certo se no asfalto ou no mar, mas o frio denuncia que foi na beleza intocável do segundo. A água imaculadamente azul, gelada até aos olhos, quebrava alma e o ser. Era simplesmente um ser quebrado em cima do precipício trêmulo e alto, esperando apenas o certeiro momento de pular. E é pulável, você sabe que é calmamente pulável quando você percebe que o medo não está isolado na barriga. Em nenhum lugar. É pulável como se do lado de baixo fosse apenas algo leve, capaz de amparar os ossos. Você nota nitidamente nos olhos que aquilo que se vê é perceptível que não é aquilo que parece.

               E é pulável, você sabe que é. Eu não diria daquele modo certo, mas isso não dói, foi o que eu testei nesses três meses. Eu já estive em milhares de precipícios e já senti as mais variadas dores, então acho que eu devo ser ouvida quando eu digo com os lábios e com os olhos que não dói. É como estar em um lugar alto demais, e apesar do meu profundo medo de altura, pular. E pular com aquela certeza plena de que eu tenho asas, que nós temos asas, e que nós não vamos cair.

               O mar é doce. Eu diria serenamente de olhos fechados e apenas sentindo aquela calma eminente que emana daquele som profundo e daquele gosto salgado que se acomoda em cima da língua. É um cheiro verde, da forma que é capaz de visualizar um par de olhos puros, grandes e brilhantes da mesma coloração. Sou capaz de sentir o gosto e o cheiro e visualizar aqueles olhos como se estivessem ali diante de mim como se fosse apenas uma imagem de mim mesma projetada por um espelho. E eu sorriria, levemente soltaria aquele sorriso bobo e infantil que eu sempre solto ao te encontrar. Aquele que eu dou quando me encosto na parede, a cabeça relaxando no corpo sentado e tenho a decência de te olhar enquanto conversamos sem dizer nada, sem ouvir nada, mas sabendo tudo que fomos feitos para saber.

               É essa a minha queda; É passageira e suave como a chuva, mas tão intensa quanto a permanência das estrelas no céu azul-marinho, ou, ás vezes, certeiro quanto a presença de luz. Você ouve a estrondo sem som, sente o impacto sem dor e apesar da queda, é calma, e não pavor. E nós vamos indo... Porque apesar de cair, o mar do lado de baixo nos leva. De mãos dadas e almas soltas, mas ambas reencontradas uma nas outras. E eu te diria nessa calma permanência de seguir em frente que é assim porque deve ser e que tudo há de se acertar. Porque nós temos a beleza do acerto e de nos entender como se a queda fosse compartilhada e ao mesmo tempo.

               É a minha queda e a sua queda; Não dói e é como se fosse uma dose de tranquilidade injetada na veia. É paz. Calma. E morfina. E simplesmente não dói.

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2 comentários

  1. Sem palavras pra definir o quanto amo esse e os outros textos seus! Yara você tem muuuito talento menina..Muito obrigada por esse blog maravilhoso! Amo também suas músicas,aquela "versos sobre nós" é muito linda e nostálgica, estou esperando uma gravação profissional pra poder baixar e ouvir todos os dias <3 uhahahaa mais uma vez parabens por esse blog capaz de inspirar tanto! bjss

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    1. awwn, que linda ♥ ♥ fiquei muito feliz em ler o seu comentário, sério mesmo :33 E pode deixar que nas férias vou tentar gravar essas e mais algumas viu :3 Vou fazer tipo um EP caseiro e para download ♥

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