#32 Entre verbos: Urso pardo

terça-feira, setembro 23, 2014

.

                 O urso pardo foi morto. Deliberadamente tombou para o lado com a flecha no peito. Morto como todas aquelas coisas frágeis que o circulava, que diziam o proteger. Os soldados do urdo pardo, mortos. Você entende, quando percebe, que aqueles que deviam proteger, lutaram e morreram pelo simples fatos de lutar. Ninguém seria forte o suficiente para proteger por tanto tempo. Até que o urso pardo ficou desamparado, desarmado, sem armadura... Ficamos sem armaduras. E eles continuavam com a deles. Não tinha o que ser feito, o urso pardo não tinha para onde correr. Ele era grande e sua presença era notada com a mesma facilidade que notamos o céu. Mas ele tentou. Ele lutou bravamente para encontrar seu esconderijo, seu refúgio, um abrigo qualquer que seja mesmo que pequeno...

                 Mas eles o encontraram... O urso estava lá, encolhido, parado, mas daquele jeito destemido apesar do medo. Dentro de si, o urso estava de mãos dadas consigo mesma e aquilo o confortava. As armas foram apontadas para seu peito pardo e o urso, desafiadoramente, abriu mais os braços, os convidando para atirar. Ah, doeu. Você sabe que sem dúvidas aquilo doeu insuportávelmente. Cada flecha uma dor a mais dentro de um corpo que não tinha mais onde armazenar dor. O suspiro foi inevitável e o urso pardo caiu. Tombou para o lado com a última flecha bem em cima do coração compartilhado e todos aqueles que o protegiam, que morreram antes, suspiraram junto.

                 Agora é aporte do inevitável segredo: O urso foi morto, mas ele não morreu. Tombou para o lado como se não tivesse mais vida, como se os motivos de viver fossem irrelevantes, mas não são, estão longe de ser. Um pequeno ser brilhante que sobreviveu ao massacre pousou no peito com sangue do urso e o curou. E o urso se acendeu, abriu os olhos. Nós abrimos os olhos. E ele viu pela primeira vez a luz, aquela necessidade irremediável de precisar viver e ao olhar para luz, ele viu a si mesmo como um espelho e reconheceu nos olhos que dentro de si havia mais do que apenas si próprio. Era um si próprio de opostos, um si mesmo completo. Ele viu que seus próprios olhos eram castanhos encantadores, vivos, e viu que nada poderia o matar. Era forte, irremediávelmente duro, como qualquer ferro inquebrável. Sorriria você ao ver o sorriso daquela luz e era notório sentir as palavras que ela dizia. Era algo como: "Eu não vou deixar vocês morrerem... Eu posso me distanciar, suavizar os problemas inevitáveis, mas não vou deixar vocês morrerem"

                 E o urso pardo tinha aquela certeza e aquele calor Tinha também alguns machucados, os cortes do passado, as perfurações, a clara certeza de que aquilo doia, mas que passava e o que realmente importava, não passaria. Era como morrer, mas não era a morte. E o urso pardo sabia que tudo aquilo que acontecia e corroia iria deixar de acontecer e de corroer. Era apenas uma questão de tempo. E a luz iria o iluminar em qualquer lugar que ele fosse.

Você também vai amar:

0 comentários



Subscribe